Pequenos tiranos

Nas férias, o convívio com as crianças é mais intenso. Muitas vezes, não é fácil estabelecer limites, impor restrições e dizer “não”. Mas isso, ao contrário do que muitos pais imaginam, é bem mais importante do que parece, tanto para a educação como para o desenvolvimento emocional da criança. Sobre o tema, vale a leitura do texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Pequenos tiranos

Por Marion Minerbo*

Todos conhecemos crianças que, desde cedo, já são pequenos tiranos. Quando contrariadas, explodem em crises de birra, deixando os pais perplexos e irritados. Estes tentam colocar limites, castigam, perdem a paciência e acabam batendo de frente, num verdadeiro braço de ferro com os pequenos. Exaustos, acabam se submetendo à tirania. Ou, com medo de perder o amor dos filhos, fazem tudo o que eles querem.

Essas atitudes acabam alimentando um círculo vicioso: a criança vai se tornando cada vez mais insuportável e incontrolável. Os pais, com razão, passam a sentir ódio da criança, que, obviamente, percebe e fica aterrorizada. Já não há prazer numa convivência em que todos sofrem. A criança se torna destrutiva e para de brincar, o que indica comprometimento grave no seu desenvolvimento emocional.

É preciso reconhecer que as detestáveis crises de birra são expressões de ódio – o qual, por sua vez, indica claramente a presença de sofrimento psíquico. Sim, mesmo crianças que, aparentemente, “têm de tudo”, podem estar sofrendo. Percebe-se que a palavra “birra” é péssima, porque nos induz a pensar em algum “defeito de caráter” (a criança é birrenta, mimada, má, tem personalidade forte), eximindo o adulto de se questionar de que forma ele pode estar contribuindo, inconscientemente, para gerar o sofrimento que se expressa através das crises de ódio.

A maior razão para o sofrimento psíquico da criança é a impossibilidade de estabelecer uma comunicação emocional profunda com o adulto significativo. Desde que nasce, a criança envia mensagens indicando necessidades emocionais básicas que precisam ser decodificadas e atendidas. Quando o adulto não decodifica, ou quando, em função de suas próprias questões inconscientes, interpreta a mensagem de maneira equivocada, dará respostas inadequadas a essas necessidades.

Ao receber respostas sistematicamente inadequadas, a criança sofre duas vezes: uma, porque aquela necessidade emocional não foi atendida; duas, porque se sente sozinho e abandonado, mesmo na presença do adulto. Há um pesadelo típico que mostra como a impossibilidade de se comunicar com outro ser humano é desesperadora: tentamos pedir ajuda a alguém que está ali perto, mas nossa voz não sai.

A interpretação suficientemente sintônica da mensagem da criança depende da capacidade de empatia dos pais. É preciso que eles consigam se colocar na pele da criança para tentar imaginar como é o mundo visto por ela. Precisam ser capazes de acessar a criança que eles foram, para traduzir o que ela está tentando lhes comunicar – às vezes de maneira muito torta, quase incompreensível. Infelizmente, ainda não há um google translator para nos ajudar a traduzir língua de criança em língua de adulto, e vice-versa.

*Marion Minerbo é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.


Pequenos tiranos

Home      Blog      artigos      Pequenos tiranos