Ano Novo – Associações livres

Ano novo é momento de refletir. Refletir sobre o que passou e sobre o que está por vir. Passado e futuro conjugados no único tempo que nos pertence: o presente. Sobre o tema, vale a leitura das “Associações livres”, do psiquiatra e psicanalista Carlos de Almeida Vieira.

O Ano Novo – Associações livres

Por Carlos de Almeida Viera*

O novo ano, uma comemoração, um instante, um momento, o tempo. O tempo da virada, da mudança. Na batucada do samba, nos agudos sons dos sinos, nas cores mescladas dos fogos de artifício, no beijo na praia, na oração dentro dos templos, no abraço amigo, no casal fazendo amor e numa criança vindo ao mundo como o primeiro do ano. Naquele que já se foi, naquela que se amou bastante, no primeiro afago, no grito do nascimento, a mãe acolhendo, tudo pode ser um instante de passagem de ano.

Se o ano passa é porque o tempo se esvai ou foi J.L.Borges escreveu que só existe um tempo, o tempo do Presente. Ainda que se fale em passado ou mesmo em futuro, o tempo é sempre presentificado; na memória do que foi ou na fantasia do que estar por vir, mas eternamente no presente, na saudade da primeira namorada, no sal das lágrimas do primeiro luto, no imaginário do que se deseja acontecer, o tempo é sempre uma experiência forte de presente, no entanto é difícil experimentar o presente. Talvez ficar naquilo que se vive, principalmente quando se trata de um momento de prazer, logo vem o medo consciente ou inconsciente de perder. A natureza humana é muito estranha, às vezes, pois como é comum se perdurar no tempo da dor!

Ano novo! Novo pelo desconhecido que é, como tudo que é novo. A expectativa de viver preenche o espaço do tempo presente do dia de ano. Nesse momento lembro uma prosa de Drummond sobre as “Ilhas”: escreveu o poeta que uma maneira sensata de viver seria “uma relativa distância e uma não estorvada confraternização”. Juntos separados, a arte do bem viver. Nem fundidos nem distantes, essa dialética do amor pode fazer duas pessoas, um grupo de pessoas, tolerarem a convivência, experiência difícil pois implica respeitar as diferenças. Boa mensagem de um ano: vamos todos seguir o conselho do Poeta Gauche!

Outro mineiro, não menos importante, Cyro dos Anjos, mais um poeta da nossa rica Literatura escreveu: “Há um tempo de amar, devaneando, e há o de cuidar, com prudência, nos encargos da maturidade. Há o tempo de ser jovem, o de ser homem, e o de ser velho.”

Há o tempo do porvir, o desejo de amar mais, a possibilidade de lidar com conflitos e perdas sem perder a sanidade, ou tirando proveito de uma “insanidade temporal”.

Se o desejo é um sentir projetado no tempo futuro, mas presente, deixo o leitor refletir nosso momento histórico: que o ano novo traga educação, moradia, justiça para os que não usam “colarinho branco”, saúde a todos e atendimento aos que podem morrer nas portas dos hospitais sem serem acolhidos. Segurança individual e social, prevenindo crimes hediondos, e finalmente: vontade política e governamental para empreender mudanças, caso contrário continuaremos não deliciar um “peru assado”, e sim, “pessoas assadas” por projéteis intencionais, balas perdidas, falta de recursos para o mínimo de sobrevivência da população carente, ao contrário da minoria privilegiada do “gigante pela própria natureza”.

*Carlos de Almeida Vieira é médico psiquiatra, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e da International Psychoanalytical Association (IPA/London).


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